Conceptuário

ARQUIVO
Função operativa primordial de todo e qualquer projecto criado à luz do “Dogma”; visa a obtenção de um plano estruturante de trabalho com o objectivo de organizar e sistematizar o conjunto de matérias “documentáveis” recolhidas ao longo de todas as fases do projecto.

 

DOCUMENTAÇÃO
Figura estruturante do processo artístico “Dogma”, ao tornar solidamente coerentes as recolhas efectuadas no contexto do ARQUIVO. A importância deste conceito pode eventualmente fazer-se substituir ao próprio projecto, transformando-se na razão de ser de toda a acção e criação artísticas.

 

OBJECTUALIDADE/RESIDUALIDADE
Binómio conceptual que explica a existência e fundamentação dos dois conceitos anteriores. À finitude formal e conceptual do trabalho artístico de cariz ‘objectual’ (perenidade), opõe-se a efemeridade formal e conceptual do trabalho artístico de cariz ‘residual’ (desaparecimento, esquecimento, memória). O “Dogma” potencia naturalmente a construção deste último.

 

MEMÓRIA
Resíduo par excellence dos objectos construídos à luz da função operativa “residual” (ver conceito-binómio anterior) e matéria documental privilegiada pelos trabalhos construídos segundo as regras do “Dogma”. Pode ser encontrada e recolhida em várias frentes, com o auxílio de vários métodos e suportes, e por intermédio da colaboração de todos os intervenientes no processo: criadores, espectadores, observadores, e agentes processuais de ordem vária.

 

ESPECTADOR/ESPECTADOR-CRIADOR
É o mais imediato binómio a ter em conta quando o projecto (dogmático) que temos em mãos visa especificamente o compromisso do espectador perante a obra criada, nomeadamente no que respeita à sua maior ou menor participação e responsabilização. Não se tratará, contudo, de dar “tarefas” ao espectador, mas antes de o responsabilizar, mesmo que seja perante uma mera actividade contemplativa.

 

AUTORIA
Advém do anterior e é o último reduto a ser mantido pelo criador (original) do projecto, quando uma parte ou o todo da responsabilidade efectiva pelo resultado já não lhe pertence; tal é válido relativamente a todas as fases e a todos os agentes do processo criativo. Este conceito visa a anulação do papel de criador como agente imperialista em relação às restantes figuras do processo; ele transforma-se, assim, num mediador ou moderador das diversas frentes co-participantes (humanas ou materiais), a quem cabe uma quota parte significativa de responsabilidade criativa.

 

PESSOAS/VIDA
Figura abrangente que envolve toda a componente humana do projecto, tido numa acepção global e transversal. O aspecto humano do trabalho prevalecerá sempre em relação a outras realidades mais ou menos materiais. E a vida do projecto é, inexpugnavelmente, a vida de uma ou mais pessoas.

 

CASA/CIDADE vs. ESPAÇO PRIVADO/ESPAÇO PÚBLICO
Micro e macro-realidade (primeiros e segundos elementos do binómio, respectivamente) que significam algo mais que o simples radical geográfico ou espacial inerente às palavras-chave. Opera nas esferas da memória, da emotividade, da socialização e da meta-ficção da realidade.

 

CONTEXTO/PROJECTO
A arte “dogmática” é “contextual” por inerência. Rever, a este respeito, as regras e sub-regras do grupo 1 do “Dogma”. Muitas vezes, “contexto” e “projecto” querem dizer a mesma coisa, ou então são uma e a mesma realidade discursiva.

 

SITE-SPECIFIC/BODY-SPECIFIC/LIFE-SPECIFIC
Progressão conceptual sofrida pelo projecto “Vou A Tua Casa” [2003/2006]: de uma intervenção marcadamente presa ao ‘local’ específico onde a performance é apresentada (‘Lado A’), para o território emocional que divide dois corpos, o do espectador e o do actor (‘Lado B’), até ao espaço mais abrangente da “vida” que antecede e que sucede o encontro/compromisso entre as duas entidades, espaço este que se afigura bem mais importante que o encontro performativo per se (‘FUI’ e ‘Lado C’). O “Dogma” privilegia, naturalmente, os projectos que se aproximem do conceito de ‘Life-Specific’.

 

INTENCIONALIDADE/COMPROMISSO/VONTADE
Releva do trinómio anterior e respeita a dimensão contratual que intermedeia as figuras do criador e do espectador: num primeiro momento, prevalece a intenção do primeiro agente em conceder parte da responsabilidade ao segundo; no momento seguinte, encontramos um compromisso tácito entre as duas partes, em que o jogo de controlo passa a ser o mais equilibrado possível; num último momento, impera uma vontade comum em fazer com que a questão da maior ou menor força operada pelos dois elementos deixe eventualmente de ser uma questão. Uma vez mais, o “Dogma 2005” privilegia o terceiro momento, patamar inegavelmente superior pela forma como autoriza os dois elementos do processo a co-existirem no processo artístico de forma simbiótica, não parasitária e não hierárquica.

 

MAIS/MENOS INFINITO
Conceito uno (não é um binómio), confiscado à linguagem matemática, servo imediato do trinómio “site-specific/body-specific/life-specific” já explicado. O conceito de “mais/menos infinito” é tanto mais operativo quanto mais se aproxima da realidade conceptual do “life-specific”: não sabemos quando é que o projecto começou (menos infinito); não sabemos quando irá acabar (mais infinito). O que fica eventualmente “no meio” perde importância.

 

PRESENTE
Conceito cuja operacionalidade é mais pragmática, ao impor regras de conduta de carácter obrigatório para todo e qualquer projecto (e respectivo responsável) construído à luz do “Dogma”. Rever, a este nível, as regras e sub-regras do grupo 4. O conceito de “Life-Specific” está estreitamente ligado a uma ideia de presente, realidade simultaneamente temporal e espacial, que implica da parte do criador/performer a obtenção de uma espécie de “grau zero da interpretação”.

 

REALIDADE/FICÇÃO/NARRATIVA
Outro trinómio de importância cara à trilogia “Vou A Tua Casa” e que pode igualmente ser entendido de maneira gradual e progressiva. De forma sintetizada, o conceito mais abrangente de “narrativa” anularia dialecticamente os dois anteriores, quando a maior ou menor ‘veracidade’ de um facto deixa de ser uma questão, para passar a ser um dado adquirido, por demais infértil em matéria de inflexão criativa.

 

ESPECIALIZAÇÃO/INTERDISCIPLINARIDADE
O especialista, dizia Chesterton, é aquele que sabe cada vez mais sobre um domínio cada vez mais restrito, de modo que a sua realização perfeita é saber tudo sobre nada. O “Dogma 2005” é, assumidamente, um manifesto radical contra uma atitude micro-espartilhada em relação ao mundo e ao conhecimento, pelo que privilegia um entendimento transversal e transdisciplinar das realidades que convoca para os seus processos.

 

JUSTIÇA PERFORMATIVA
Conceito operativo que, a par do conceito de “presente”, actua na relação “life-específica” que medeia criador e espectador. Numa relação equitativa, cada um dos dois elementos poderia dizer ao outro: “tens o espectáculo que mereces receber”.

 

PREGUIÇA PERFORMATIVA
Conceito criado para o projecto “FUI”, que consiste na seguinte premissa: o criador não deve ter ideias pré-concebidas, antes deve esperar que sejam elas a vir ter com ele. A partir do momento que o criador define que se encontra “em processo”, pela evidência de uma ideia e do seu peso conceptual, terá apenas que responder aos estímulos que o contexto que viu ou que fez nascer essa ideia poderá eventualmente ditar. Recordar, a este respeito, as regras e sub-regras do grupo 1.

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