Voto de Castidade

Eu, [nome do artista], comprometo-me a cumprir, ao longo de todas as fases do meu processo de trabalho, as seguintes regras, obrigações e interdições, que consubstanciam o ‘Dogma 2005’ e às quais terei que submeter o meu projecto:
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1.
Não existem temas. A matéria sobre a qual o projecto deverá versar é o projecto ele próprio, assim como o contexto social, político e institucional que o envolve. O criador fica proibido de partir para o projecto com “ideias pré-concebidas”.
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1.1.
Se existem ideias pré-concebidas, elas estão no projecto e no contexto, nunca no criador.
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1.2.
Entendem-se por “ideias pré-concebidas” quer entidades imateriais (figuras conceptuais de ordem vária), quer entidades materiais (textos, objectos, roupas, músicas, performers, etc.). A existirem, essas entidades terão que ser fornecidas pelo contexto, nunca por sugestão da imaginação do criador.
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1.3.
Como fica depreendido nas sub-regras anteriores, não existem ‘intérpretes’ no sentido tradicional do termo. O único intérprete é o trabalho ele próprio. Por outras palavras, o trabalho interpreta-se. O contexto interpreta-se com ele. O projecto, no sentido teórico do termo, é o único “actor” possível.
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1.4.
É o projecto como ideia e é o contexto como ideia que fornecem os materiais de que se fazem os processos. Os resultados, a existirem, serão a possível demonstração desses materiais, de forma documentada, clara e concisa, em eventos mais ou menos performativos, irrepetíveis e de duração não controlável. Nunca a inteligência do criador poderá ir mais longe do que a imanência imaculada dos materiais.
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1.5.
A existir um entendimento crítico e/ou parodial sobre as práticas artísticas contemporâneas e respectivas contingências institucionais, ele já é fornecido, em abstracto, pela própria ideia/conceito de ‘Dogma’. Não será necessário, portanto, produzir discursos redundantes.
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2.
“Para compreender uma obra de arte, o público tem que ser igualmente criativo” [Marcel Duchamp, de cuja herança, para mal dos pecados de muitos, ainda não nos libertámos, dixit]. O ‘Dogma 2005’ assume a figura do público como um dos elementos do contexto que envolve o projecto e o criador, logo, de importância idêntica ou superior aos mesmos. Em última análise, a palavra final caberá sempre ao espectador, responsável máximo pela validação/legitimação do projecto.
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2.1.
A participação e o compromisso do espectador perante a obra, tenha ela o formato que tiver, é uma dimensão obrigatória de todo e qualquer projecto construído à luz do ‘Dogma’.
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2.2.
O criador deverá ceder a sua autonomia perante o objecto criado (ou em construção) a favor da partilha de cada uma das suas partes com o público. A este terá sempre que ser concedido poder para, em determinado momento da sua participação e do seu compromisso, poder mudar o rumo do trabalho.
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2.3.
Pelo que se depreende das sub-regras anteriores, o social/colectivo será sempre superior ao individual/pessoal. O artista/criador não é mais artista/nem mais criador só porque impõe o seu gosto pessoal e faz dele a razão de ser e a fundamentação mais forte da sua acção e da sua intenção. A responsabilidade máxima é do espectador (usufrutuário); a responsabilidade média é a do projecto e a do contexto (influenciadores/inspiradores de primeira ordem); o criador é, apenas e só, um mediador.
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2.4.
O criador está, portanto, proibido de impor as suas preocupações estéticas, filosóficas, metafísicas e outras em detrimento da existência concreta do projecto, do contexto e dos espectadores. Ou seja, a personalidade do projecto é mais importante que a personalidade do criador.
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3.
O objectivo basilar do Dogma é a construção de objectos que antes de se poderem denominar de “artísticos”, devem ser chamados de “problemáticos”. Daí a inevitabilidade do abandono de todo e qualquer carácter lúdico, mais ou menos espectacularizante, do objecto produzido ou a produzir.
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3.1.
No que às apresentações públicas diz respeito, eliminam-se drasticamente todo o tipo de preocupações demasiado puristas em relação a formas e formatos. Estas e estes serão sempre escolhidos de acordo com um simples critério: escolhem-se as formas e os formatos que de maneira óbvia, fácil e directa, melhor servem aquilo que se quer dizer.
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3.2.
Pela sub-regra anterior depreendem-se três importantes fundamentos:
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3.2.1.
O vídeo, a fotografia, a palavra, o movimento, etc., são suportes/meios, não são objectos/fins; toda e qualquer realidade disciplinar (diria melhor, disciplinada) jamais poderá justificar a acção que conduz ao projecto. O projecto já é a acção, logo, o projecto é a disciplina, logo, o projecto é o nome que a coisa tem.
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3.2.2.
Em conclusão à sub-sub-regra anterior, o ‘Dogma 2005’ prevê o abandono total por parte do criador de toda e qualquer denominação convencional que catalogue o trabalho que está a fazer.
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3.2.3.
O ‘Dogma’, ainda assim, aceita propostas.
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3.3.
Um objecto “problemático” é um objecto “problematizado” e infinito na sua “problematização”. Por outras palavras, é um objecto pensante. Não vale dizer que se é laboratorial. Não vale dizer que se é experimental. É-se sempre. Uma vez mais: o ‘Dogma 2005’ rejeita discursos artísticos redundantes.
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3.3.1.
A investigação profunda dentro do âmbito das matérias com que se constroem os trabalhos não é uma acção paralela a um possível resultado final; ela é, já, o resultado final. Qualquer apresentação mais ou menos performativa de carácter público será sempre subsidiária dessa investigação inicial.
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3.3.2.
A investigação diz-se inicial apenas por capricho teórico. Na verdade, ela deverá acompanhar todo o processo. Ainda assim, o criador é obrigado a renunciar a todas as convenções contextuais/institucionais que formatam o trabalho de investigação, de maneira a poder criar autonomamente o sistema que possa ser o reflexo fiel das idiossincrasias do projecto que tem em mão. É possível fazer trabalho rigoroso de investigação descobrindo a metodologia no fim.
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4.
A única “história” a contar é a história do projecto que se está a fazer. O criador deverá criar estratégias documentais que lhe permitam fazer prova (no sentido “jornalístico”, “científico” e “judicial” do termo) da biografia do projecto que está a relatar, fazendo uso de metodologias basilares às práticas arquivística, arqueológica e antropológica, ao mesmo tempo respeitando a clareza cronológica dos factos e cumprindo com as leis sacrossantas da imparcialidade e do distanciamento crítico.
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4.1.
Não obstante, é às regras do ‘Dogma’ tout court que o criador deverá operacionalmente recorrer para a  legitimação/validação de todas as suas decisões.
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4.2.
Essa legitimação/validação será sempre, em última instância, de tensão e intenção categorial e taxonómica. A legenda será sempre mais importante que o objecto legendado. Ou então: o making of será sempre mais importante que o filme.
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5.
Ou seja: dizer sempre a “verdade”, mesmo sabendo que a “verdade” é desfocada, desfasada e quase sempre desfeita. Mesmo sabendo que “verdade” nem sempre diz a verdade. Mesmo sabendo que a “verdade”, na verdade, não existe. Por outras palavras menos líricas: é com coisas verdadeiras, é com objectos verdadeiros, é com palavras verdadeiras que o criador terá que trabalhar. Não há lugar para a falsidade, só há lugar para a FICÇÃO: a vida de um projecto artístico ficcionada ao sabor da sua própria estruturação, alimentada pelos seus próprios mitos, pelas suas próprias simulações.
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5.1.
A vida de quem cria é a vida real. E a vida real faz parte da criação. Todos os projectos ‘Dogma’ são obras da realidade; qualquer semelhança com a ficção terá sido pura coincidência. Ou não.
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5.2.
O tempo de que se fala é o tempo que decorre, ou então o tempo que provocou o tempo que agora decorre, como se o passado mais ou menos imediato referente ao trabalho fosse mais importante que o próprio trabalho, anulando-o dialéctica e ad eternamente…
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5.3.
É importante, porque ficcionadamente “estruturante”, tudo o que no quotidiano acontece e que a tendência habitual tende a combater e a anular. O copo não é menos importante que a água. O “Dogma” é apologista de uma autêntica (e não camuflada) aglutinação do trabalho artístico com a vida.
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6.
Não obstante as premissas supra-explanadas, o “objecto” criado jamais será total. Isto é, o “objecto”, porque é “objecto”, não fala, muito menos sozinho. Qualquer criação ‘Dogma’ carecerá sempre de um discurso paralelo na voz do sujeito executante, que contextualize o “objecto”, explicando-o. O criador assumirá, assim, uma função inequivocamente didáctica, responsabilizando-se, e responsabilizando o espectador, perante o juízo final: foram ou não cumpridas as regras do ‘Dogma’? Este processo final de “tribunalização” do objecto (e do sujeito que o criou e que sobre ele fala), deverá encerrar uma metodologia concertada entre todos os agentes envolvidos (criador, espectadores, contexto), fundamentando-se, técnica e filosoficamente, num conceptuário criado propositadamente para o efeito.
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